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Recordar, repetir, elaborar: o que o yoga me ensinou antes da psicanálise

  • há 3 dias
  • 7 min de leitura


Protege minha calma, é preciso ser forte pra ser, precisa ser forte. 

Dandara Manoela



Recordar, repetir e elaborar. É o título de um dos textos técnicos mais conhecidos de Freud, de 1914, sobre como aquilo que não pode ser lembrado através da palavra insiste em se repetir, e sobre o trabalho de elaborar essa repetição até que ela possa, enfim, ganhar outro destino. Essa mesma lógica, percebi, eu já havia atravessado muito antes de estudar psicanálise, num shala de Ashtanga yoga em Lisboa. Decidi trazê-la para cá porque talvez você reconheça, na sua própria história, essa mesma pergunta: o que a gente repete sem saber, e o que, com tempo e paciência, consegue finalmente elaborar.


Comecei a me interessar por yoga em 2018, quando vivia em Portugal e resolvi experimentar uma aula por mera curiosidade sobre o que aquilo poderia ser. Fui sem expectativas, pois realmente não sabia o que esperar. Buscava uma nova experiência, algo que transcendesse a simples prática esportiva ou a rotina de uma academia.


Pouco sabia sobre o yoga e pensava que a prática se limitava a uma série de posturas físicas com diferentes intensidades. Ledo engano. Ao entrar em um shala tradicional de Ashtanga yoga em Lisboa, percebi a imensidão que essa prática poderia alcançar em minha vida.


Como iniciante, sem nenhum conhecimento prévio sobre a tradição e a filosofia do yoga e sem nunca ter experimentado qualquer postura, entrei em uma sala à meia-luz e imediatamente notei o silêncio predominante no grupo. O único som presente era o da respiração dos praticantes, conectados pelo que depois vim a conhecer como meditação em movimento.


A respiração era quase sincronizada, alta e acompanhava a “coreografia”, dando maior fluidez às posturas. As pessoas praticavam yoga no seu próprio ritmo, sem a orientação direta de um professor. Ao terminar a série de posturas, cada um se dirigia, aos poucos, para um canto mais reservado e escuro para o śavāsana, a postura de relaxamento profundo, considerada a mais importante.





Popularizado como um método exigente e difícil, o Ashtanga propõe que o estudante pratique seis vezes na semana, com um dia de descanso. A prática é construída em uma série fixa de posturas que se repetem todos os dias e, conforme o aluno ganha consistência, força e habilidade, o professor lhe presenteia com novas posturas.


A prática é de fato exigente, mas não chega a ser difícil. Em um mundo onde tudo é para ontem e temos pressa o tempo inteiro, a dificuldade está no processo de construção. Muitas vezes, esse processo diz respeito a construir-se e a entender que, no yoga, assim como na vida, as coisas levam tempo para serem enraizadas e desenvolvidas.


Se trouxermos para o viés psicanalítico, o texto “Recordar, Repetir e Elaborar”, de Freud, e a prática de Ashtanga yoga podem ser relacionados através de seus métodos e objetivos no contexto de exploração interior, autoconhecimento e transformação pessoal.


No Ashtanga, recordar pode ser visto como trazer a atenção consciente para o corpo e a mente. Ao praticar posturas, técnicas de respiração e meditação, o praticante pode acessar memórias e emoções armazenadas no corpo e na mente. A atenção plena ajuda a recordar e reconhecer tensões, traumas e padrões comportamentais.


Baseada na repetição, a sequência fixa de posturas é a mesma todos os dias. Essa repetição permite que o praticante observe como o corpo e a mente reagem ao longo do tempo, revelando padrões de comportamento e pensamento que podem estar enraizados.


Uma das premissas do yoga é a presença, apesar de que ser e estar presente é extremamente difícil. Quando aderimos a uma rotina com horários pré-definidos e disciplina, percebemos que esta prática que, em teoria, deveria ser igual todos os dias, é, na realidade, completamente diferente.

Percebemos que somos e estamos diferentes a cada dia. É fácil estar fisicamente presente; difícil é manter a mente na mesma sintonia e com foco, sem se perder em milhares de pensamentos.


Por fim, a elaboração na prática de Ashtanga yoga envolve trabalhar conscientemente através das limitações físicas e mentais que surgem. Ao enfrentar e superar dificuldades nas posturas e na meditação, o praticante elabora seus bloqueios internos, transformando a prática física em um processo de autoconhecimento e crescimento. O foco e a disciplina necessários na prática diária ajudam a transformar padrões negativos em uma compreensão mais profunda e aceitação de si mesmo.


Praticar yoga é um compromisso com nós mesmos, com a constância, disciplina e com a sensação de pertencimento que só uma comunidade que partilha dessa jornada ao nosso lado pode proporcionar.


Voltando à minha primeira experiência no Ashtanga, o ambiente era acolhedor e ninguém tinha pressa de partir. As pessoas eram distintas, homens e mulheres de diversas idades e nacionalidades. Havia um ritual, ou seja, a rotina de yoga daquele grupo tinha significado. Ali, todos eram bem-vindos. Quem estava ali, queria pertencer.


Todo ritual compartilhado nasce da confiança e, para que aquele grupo de praticantes de yoga pudesse criar vínculos e se relacionar, as pessoas precisavam confiar umas nas outras. O hábito de praticar yoga já era parte da rotina e, quanto mais intensa fosse a experiência da prática, mais significado ela teria para o grupo.



Rituais são ações simbólicas, processos de incorporação e encenações do corpo. Transmitem e representam todos os valores e ordenamentos que portam uma comunidade. São inscritos no corpo, incorporados, ou seja, internalizados corporalmente. Desse modo, os rituais criam um saber e uma memória corporalizada, uma comunhão corporal.

Byung Chul Han



As pessoas se identificavam. Havia presença, troca de olhares, sorrisos, empatia. Vulnerabilidades e medos eram compartilhados, assim como as muitas conquistas que a prática também pode proporcionar, como, por exemplo, abrir o peito e o coração em uma postura difícil, capaz de mexer com as emoções de qualquer um.


Alegro-me imensamente de ter me permitido sair da zona de conforto para ampliar minhas perspectivas e incorporar novas visões que, somente pela via racional e prática, não seriam possíveis. Conheci um mundo novo que me agradava muito.


Precisava do yoga em minha vida: colocar os pés no chão, fincar algumas raízes, me reconectar, criar maior consciência do corpo e acalmar minha mente. Priorizei a prática como uma atividade diária. Quanto mais entrava nesse mundo, mais me interessava pelos ensinamentos, pela filosofia, pelos mantras e por tudo que a tradição engloba.


Eu pertencia àquele lugar. Minha história com o yoga começou em Lisboa, mas se estendeu por outros países da Europa, atravessou o oceano até o Brasil e me conectou com pessoas maravilhosas que ajudaram a construir essa jornada.


Há comunidade nos quatro continentes. Os idiomas podem ser diferentes, mas a sensação de pertencimento é a mesma. A linguagem do movimento, da conexão entre corpo e mente, e do desejo de viver bem é universal.



Não há lugar melhor para aprender a arte do amor que numa comunidade.

Bell Hooks



Aprendi a escutar melhor minhas necessidades, meu corpo e, acima de tudo, as outras pessoas. Entendi que quando realmente escutamos, um mundo de novas possibilidades se abre e conseguimos verdadeiramente fazer o bem para alguém. É certo que o Ashtanga me despertou o interesse em estudar psicanálise, e conhecer mais sobre a mente e o comportamento humano.


É interessante pensar que o yoga enfatiza a disciplina da mente e nos mostra a importância da coerência entre o pensar e o agir, o compromisso com os valores que devem ser entendidos e assimilados para poderem fazer parte da vida de quem busca o autoconhecimento.





A filosofia do yoga nos diz que o sentimento constante de carência e limitação do ser humano decorre da ignorância sobre si mesmo e da conclusão equivocada de sua verdadeira identidade. A solução para este problema fundamental que sempre nos acompanha seria o autoconhecimento (Yoga Sutras de Patañjali).


A psicanálise, com diferentes abordagens e objetivos, também busca o autoconhecimento e a transformação pessoal do sujeito. Enquanto o yoga enfatiza a conexão entre corpo e mente para a saúde e bem-estar, utilizando práticas físicas, respiratórias e meditativas para fortalecer o corpo e liberar tensões que podem refletir no estado mental, a psicanálise foca na exploração do inconsciente, dos processos mentais e das emoções para entender os conflitos psicológicos e emocionais.


Embora a psicanálise não tenha um foco direto no corpo físico, ela reconhece que mente e corpo estão intimamente interligados e que problemas emocionais e psicológicos podem se manifestar fisicamente. A psicossomática se destaca não somente na psiquiatria e na psicologia, mas também na psicanálise, permitindo uma compreensão mais completa do indivíduo e uma abordagem de tratamento mais eficaz.


Compreender a interconexão entre os estados emocionais e condições físicas, além de ajudar na prevenção e tratamento de doenças, também permite a elaboração de questões emocionais subjacentes, condições de saúde crônicas, dores físicas persistentes e outras questões que podem afetar negativamente o bem-estar e a qualidade de vida do sujeito.


Muitas vezes, sintomas físicos inexplicáveis podem ter uma base emocional inconsciente que o sujeito desconhece. A psicanálise, por sua vez, pode ajudar na identificação e no tratamento desses sintomas, abordando as causas encobertas e, muitas vezes, reprimidas.


Não posso deixar de mencionar que tanto o yoga quanto a psicanálise envolvem uma jornada de exploração interior. Enquanto o yoga pode facilitar o acesso a estados de consciência expandida através da meditação e do foco na respiração, a psicanálise faz uso da associação livre, da interpretação dos sonhos, atos falhos, chistes e lembranças do sujeito para acessar o inconsciente e trazer à tona questões mais profundas da psique.


Minha jornada com o yoga começou despretensiosamente e se transformou em uma experiência profunda e reveladora. O envolvimento diário com a comunidade e com a prática de sequências fixas e repetitivas me permitiu observar a interação entre corpo e mente ao longo do tempo. Quanto mais eu praticava, melhor me sentia.


A disciplina necessária e constante me ensinou que, assim como na vida, as mudanças profundas demandam tempo e persistência. É um trabalho de paciência, com resultados a longo prazo. No yoga, assim como na psicanálise, nada acontece de um dia para o outro. Ambas as disciplinas exigem nossa implicação e esforço para dar certo.


A experiência do Ashtanga me proporcionou uma sensação de pertencimento e comunidade. Ao compartilhar vulnerabilidades e conquistas com outros praticantes, percebi a importância de estar presente e realmente escutar a mim mesma e aos outros.


Ao refletir sobre essa jornada, sinto imensa felicidade por me permitir vivenciar algo tão significativo. A prática me ajudou a fincar raízes, a acalmar a mente e a criar uma consciência mais profunda do meu corpo. A paixão que desenvolvi pelo yoga transformou essa prática em uma parte essencial da minha vida diária, me permitindo crescer e me conectar de maneiras que jamais imaginei.

Hoje, quando escuto alguém na clínica repetir aquilo que ainda não consegue nomear, penso muitas vezes naquele tapete, naquela sala em Lisboa. Recordar, repetir, elaborar não é só o título de um texto de Freud. É o que qualquer processo de transformação real exige, seja no consultório, seja num shala.



Minha resistência é voz e se for preciso, eu aprendo a ser feroz.

Dandara Manoela, trecho de "Minha Prece"



 
 
 

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